quarta-feira, 13 de junho de 2012

o reverso do lar

Cozinhar é uma arte perigosa;
as cebolas frequentemente dissimulam
lágrimas retidas
esquecidas dentro de antigos guardanapos
de papel;
descobrimos, com frequencia,
amarguras enclausuradas
em cascas de amêndoas torradas,
tentativas de suicídios nunca antes praticadas
com facas afiadas de cortar músculo,
gorduras suntuosas que, desmedidas,
anunciam um infarto - logo acima do coração
de uma galinha;
quase sempre nos deparamos
com a tendência de nos queimarmos,
mesmo quando dedicamos
tempo
afeto
e lemos as instruções com atenção;
sempre - sempre mesmo,
verificamos que tudo que é bom deixa um resto
indigesto
cobrindo os buracos
os ralos emitem cheiros ocres
e denunciam algo que foi doce.
Mas o pior mesmo são aquelas raras vezes
em que, atônitos,
nos descobrimos sem respostas
e até mesmo sem perguntas
frente ao vazio do desuso
de um destrinchador de aves.

3 comentários:

Rodrigo Isoppo disse...

hehehe. destrinchador de aves.

Nina disse...

quanta poesia pode render o tal destrinchador de aves! e a gente pensando que era inútil.. tsc tsc

Julianna disse...

pois é, quem diria! ahaha subvertendo sentidos ;)